Bom dia queridos amigos e leitores do Instituto do Amor. Cada um tem sua história de amor para contar. Hoje, quem divide um pouquinho de seu coração é a querida Betina. Uma mulher forte, intensa que ainda não tive o prazer de conhecer pessoalmente, mas que acompanho com muito respeito suas conquistas, questionamentos, alegrias e desafios. Betina, seja bem vinda, e esteja conosco sempre que quiser. Com amor, Joana.

“Meu avô, meu avozinho!
Ele se foi muito cedo…
Muito, muito cedo…
Eu tinha apenas 6 anos…
Falar do meu avô , é falar do vento.
Toda vez que eu sinto o vento, eu sinto meu avô.
O vento que eu sentia agarrada nele enquanto pedalava sua bicicleta.
E saiamos assim, serelepes para a quitanda comprar bala 7 belo, pepper, chita.
Toda vez que eu vejo bala 7 belo, eu vejo meu avô.
Fico triste de ter poucas fotos dele. Era um rebelde para fotografia. Mas eu fotografei meu avô com meu coração.
Lembro do quintal da sua casa, do pé de manga, de deixar eu ser livre…
Lembro da mina de água, dos garrafões jogados na lateral da casa na garagem, d meu lado explorador com meu avô. Eu ia com ele na mina e saia caminhando, na terra….eu lembro de lá…vagamente…
E lembro do fático dia…
Lembro de me colocarem na janela.
Lembro de ter pulado a janela…
Lembro de ver você imóvel com a cabeça toda enfaixada…
Lembro de você mexer sua mão, colocar no meu rosto e…
E….acabou…
Foi assim…me retiraram de lá voando…
Nunca mais falamos de você.
Falar de você era ver meu pai chorar…e minha mãe lida com sentimento “eliminando vestígios”. Ela acredita que assim, a pessoa não sofre.
E assim vivi….até aquela fatídica noite…
Minha empregada faleceu…
E eu sentia asfixia, chorava copiosamente …
Fui a terapia e mexemos, remexemos e veio você…
Foi tão dolorosa sua perda…e eu nunca tinha falado sobre isso.
Foi imensa a minha dor…uma dor insuportável que revivi na fase adulta.
Eu chorava muito , muito porque minha empregada faleceu da mesma forma que você…e eu lembrei…
Como pode alguém tão pequeno, guardar assim ?
Eu guardei…
Eu guardei você todinho.
E dai, depois de um certo tempo, bem depois mesmo, decidi resgatar “minha base”seja em valores, seja em estar perto de quem gosta.
E ai fui buscar você…anos e anos depois…
Eu decidi ser sua portuguesa , de fato!
Eu decidi tirar a cidadania portuguesa.
Eu queria ser aquela que você dizia :
- Portuguesa, tus és bruta mas eu gosto de ti!
Eu me jogava no seu colo.
Lembro da minha analista me dizer que se jogar no colo de alguém é um profundo ato de amor pois precisa de muita confiança.
Eu tinha isso com você.
Eu pensei, vozinho, que isso tinha acabo assim…e eu tinha resolvido “tudo”.
Eis que seu filho, meu pai, também me espera para morrer.
Foi tão doloroso reviver este sentimento….
Seu filho, vozinho, agüentou firme desde as 12h para quando eu pegasse o avião as 22h ele chegasse em Presidente Prudente. E seu filho, vozinho, quando eu sobrevoava Presidente Prudente as 22h45 ele falece.
Ele, assim como você, me esperou para falecer…
Confesso…é um presente saber disso mas é uma dor.
E foi minha irmã, ao mexer nas coisas do meu pai, achou sua aliança de casamento de 1934 com a vovó e me dise :
- Be, essa aliança deve ser sua. Eu nem me lembro do vovô e sei o quanto ele era importante a você.
Pois bem, peguei-a e lembrei do hospital. São raras as vezes que penso em você e penso em hospital, aquele cena em que não era você.
A aliança cortada, para você entrar correndo em cirurgia…
Eu fiquei horas olhando a aliança.
E decidi faze-la brilhar de novo.
Decidi ter um pedacinho seu perto de mim.
Sabe , o mezuza, dos judeus ? Aquele que colocam na porta para você lembrar da existência do divino ?
Pois é….
Sua aliança virou meu mezuza.
Eu olho para ela, eu vejo você, eu vejo proteção, eu me sinto segura.
Cuida do seu filho por ai…
Aqui embaixo, tenho vocês dois por perto…
No vento…eu sinto o vento…eu sinto vocês…”
Betina Moreira
Instituto do Amor